Um dos motivos mais frequentes de avaliação da Pneumologia em pacientes internados, a solicitação de oxigenioterapia domiciliar prolongada (ODP) deve ser conhecida e entendida e pode ser solicitada por todo e qualquer médico. Trouxemos um caso hipotético para que você entenda de uma vez por todas como avaliar e como pedir oxigenioterapia domiciliar.
Paciente do sexo feminino, 69 anos, internada em enfermaria por quadro de DPOC exacerbado.Tem ainda hipertensão arterial sistêmica, insuficiência cardíaca diastólica, fibrilação atrial crônica e hipotireoidismo. Foi solicitada avaliação (interconsulta) da pneumologia pois paciente não tem conseguido ficar sem oxigênio durante a internação e em casa não fazia uso.
Você chega para avaliar a paciente, que está com dispneia mMRC 2 e pouca tosse. Está com cateter nasal de oxigênio (CNO2) com fluxo a 2L/min, com oxigenação periférica (SpO2) de 90%.
Vamos aprender?
1) Qual os próximo passo?
Inicialmente temos que avaliar se a paciente realmente tem hipoxemia no repouso, ou seja, devemos desligar o oxigênio e acompanharmos (de perto, viu?) qual a saturação periférica que a paciente ficará em ar ambiente. Esta paciente chegou a 85% (SpO2 mínima).
Devemos confirmar essa hipoxemia através de uma Gasometria Arterial. Desta forma você deve retirar a oxigenioterapia e aguardar de 30-60min com a paciente em ar ambiente para colher esse exame. Mas por que de 30 a 60 min? Caso a oxigenação caia rápido e/ou a paciente apresente desconforto / dispneia intensa, você aguarda menos tempo, mas se der para esperar um pouco mais, melhor, afinal a gasometria arterial é um exame doloroso e você quer colher apenas uma vez, e se o tempo em ar ambiente for muito curto, ele pode não representar de forma fiel a hipoxemia da paciente,, pois ainda terá oxigênio suplementar circulante.
Outro motivo que devemos lembrar para a gasometria arterial vir com valores superestimados é o cuidado com a seringa após a coleta de exame. Não devemos chacoalhar a seringa, pois desta forma pode entrar ar na amostra, que poderá vir com resultados errados, da mesma forma que não devemos demorar muito tempo entre a coleta e a análise da amostra, pois a exposição prolongada ao ar também altera esse valor.
Esse não tem jeito, tem que decorar:
a) Pressão parcial de oxigênio (PaO2) menor ou igual a 55mmHg ou saturação arterial de oxigênio (SaO2) menor ou igual a 88%
OU
b) Pressão parcial de oxigênio (PaO2) igual a 56-59 mmHg ou SaO2 igual a 89%, associado a:
I) edema por insuficiência cardíaca
II) evidências de cor pulmonale
III) hematócrito ≥ 55%
Digamos que a gasometria arterial da paciente veio: GA pH 7.38 PaO2 55 pCO2 45 BIC 33 SaO2 89%. Desta forma conseguimos solicitar o oxigênio pois atingiu o critério gasométrico, no caso, PaO2 = 55% em ar ambiente. Agora, para solicitar o oxigênio pelo SUS, devemos:
a) Fazer um relatório simples, do quadro da paciente com condição atual, e o CID
b) Pedir oxigenioterapia para transporte, caso seja necessário, ou seja para que a paciente possa ir para consultas e para realizar exames
c) Imprimir uma cópia da gasometria arterial, que comprova a necessidade da paciente
d) Preencher o Formulário para Oxigenioterapia Domiciliar Prolongada do seu município (Download: aqui)
Você entrega tudo ao paciente e solicita que ele leve à sua Unidade Básica de Saúde, que deverá disponibilizar o oxigênio para que a paciente possa ter alta hospitalar.
I) Você deve orientar a paciente a usar oxigênio por pelo menos 15 horas por dia. Ela deve usar sempre que for submetida a um esforço e durante o sono, situações em que o oxigênio tende a cair ainda mais.
II) Você deve orientar a paciente a ficar longe do fogo, uma vez que o oxigênio é inflamável (principalmente se a paciente fuma - o oxigênio contínuo é contraindicado nesses casos - e se a paciente, por exemplo, cozinha e/ou usa o fogão)
III) A paciente pode estar precisando de oxigênio somente devido a exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica. É importante, assim, a reavaliação desta paciente entre 45 a 90 dias após a alta hospitalar, uma vez que a recuperação muitas vezes é lenta e a paciente pode não precisar mais desse cuidado em pouco tempo.